O Fio da MeadaInvestigação 001: Subsolo
PTEN
Cava de mineração em degraus, de terra avermelhada, na Serra dos Carajás
Carajás (PA), 2016 Foto: IsabeleC, CC BY-SA 4.0
Praia de areia escura, quase preta, com a espuma de uma onda
Areia monazítica, Guarapari (ES) Foto: Marcelo Moryan/MTur

Investigação 001

O Brasil tem o que o mundo precisa.
Quem está negociando essa riqueza?

Embaixo do chão brasileiro está a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Os Estados Unidos precisam dela para depender menos da China. Esta investigação mostra quem está negociando esse acesso, e em nome de quem.

Cava de mineração em degraus na Serra dos Carajás
Carajás (PA), 2016. Foto: IsabeleC, CC BY-SA 4.0

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Seis minerais, um mesmo mapa

Nióbio, terras raras, grafite, lítio, níquel e cobre estão nos motores elétricos, nas baterias, nas turbinas e nas armas. O Brasil tem todos eles. Em dois, é potência mundial.

Escolha um mineral para ver onde ele está.

Os números vêm do Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos EUA. Toque em um mineral para ver uso, locais e fonte.

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Ter não é o mesmo que produzir

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta e produziu cerca de 0,5% do total mundial em 2025. A China tem metade das reservas e quase 70% da produção. É essa distância que todo mundo quer explorar.

Participação no total mundial de terras raras
Fonte das reservas:

Reservas

China 52% 44 MtBrasil 25% 21 Mt

Produção 2025

China 69% 270 mil tBrasil 0,5% 2 mil t

ChinaBrasilOutros países

USGS informa “mais de 85 milhões de t” no mundo; percentuais aproximados.

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As duas fronteiras já têm comprador americano

No norte de Goiás, a única mina comercial de terras raras do país passou para as mãos de uma empresa americana em setembro. No sul da Bahia, outra empresa dos EUA é dona de um projeto de areias minerais desde 2023.

  1. Energy Fuels conclui a compra do projeto de areias minerais no sul da Bahia.

  2. USA Rare Earth anuncia a compra da Serra Verde, em Minaçu (GO).

  3. A compra é concluída, por cerca de US$ 2,8 bilhões.

  4. Lula sanciona a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

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Quem está negociando essa riqueza?

Daqui em diante seguimos o fio: do que existe dentro do seu celular à disputa entre EUA e China, da tarifa de 50% às pessoas que se ofereceram como ponte em Washington, dos fundos que já estão no território às escolhas que o Brasil ainda pode fazer.

  1. 1SubsoloO Brasil e seus minerais
  2. 2O que existe dentro do seu celularDos minerais aos objetos
  3. 3Por que o Brasil virou alvoReserva, produção e refino
  4. 4Pressão, aliado, acordoO padrão e o caso brasileiro
  5. 5Quem é quemPessoas e papéis documentados
  6. 6Siga o dinheiroFundos, empresas e vínculos
  7. 7Onde o subsolo já tem donoSul da Bahia e Minaçu (GO)
  8. 8O que o Brasil faz com issoExportar, processar ou industrializar

Capítulo 2

O que existe dentro do seu celular

A disputa pelo subsolo brasileiro começa num objeto que cabe no bolso.

Li-ion
Pequenos ímãs cúbicos de neodímio enfileirados
Ímãs de neodímio, uma das terras raras. Foto: Wikimedia Commons, CC BY 3.0
Celular real desmontado: placa, bateria e tela separadas sobre uma mesa
Um celular real desmontado. Foto: DungeonLords, CC BY-SA 4.0

Pegue o celular que está na sua mão

Ele parece um objeto de vidro e metal. Por dentro, é um pequeno mapa da mineração mundial: dezenas de elementos químicos vindos de minas espalhadas pelo planeta.

Cinco camadas, dezenas de elementos

Tela, placa de circuito, bateria, componentes e carcaça. Cada camada depende de minerais diferentes, e alguns deles estão embaixo do chão brasileiro.

O ímã que faz o celular vibrar

O alto-falante, o microfone e o motor de vibração usam ímãs minúsculos de terras raras, como neodímio e praseodímio. São os mesmos ímãs que movem o carro elétrico, a turbina eólica e o míssil guiado, em tamanho muito maior.

A bateria: lítio, grafite e níquel

O lítio carrega a energia. O grafite forma o ânodo, o polo negativo. O níquel entra no catodo de várias químicas de bateria. O Brasil tem a 2ª maior reserva de grafite e a 3ª de níquel entre os países listados pelo USGS.

Os circuitos: cobre

Trilhas de cobre levam corrente e calor por toda a placa. Silício, prata e tungstênio completam os chips e as conexões.

E o nióbio?

Quase não está no celular. Está no aço de alta resistência das torres de transmissão, dos gasodutos e das turbinas que mantêm o celular ligado. De cada 100 kg de nióbio produzidos no mundo em 2025, 93 saíram do Brasil.

Capítulo 3

Por que o Brasil virou alvo

Reserva, produção e refino contam três histórias diferentes. Em todas, o Brasil é a alternativa que falta aos EUA.

Passe o mouse ou toque em um país
71% das importações dos EUAa alternativaChina 44 MtBrasil 21 MtAustrália 6,3 MtRússia 3,8 MtVietnã 3,5 MtEUA 1,9 MtGroenlândia 1,5 Mt91%do refino mundial
Cor e círculos proporcionais a reservas, em toneladas de óxidos. Fonte: USGS, 2026.

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Quem tem

As reservas de terras raras estão concentradas em dois países. A China tem 44 milhões de toneladas; o Brasil, 21 milhões. Os dez seguintes, somados, têm menos que o Brasil.

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Quem tira do chão

Na produção, o quadro é outro. Em 2025 a China extraiu 270 mil toneladas; os EUA, 51 mil; o Brasil, cerca de 2 mil. A segunda maior reserva do mundo ainda é quase só reserva.

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Quem transforma

O gargalo real está depois da mina. A China refina 91% das terras raras magnéticas do mundo e fabrica 94% dos ímãs. Quem controla essa etapa controla a cadeia inteira.

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Quem depende

Em 2025 a China restringiu a exportação de sete terras raras usadas em ímãs e armas. Os EUA compram dela 71% dos compostos e metais de terras raras que importam. Washington precisa de outra fonte, e só um país tem reserva para isso.

Reservas de terras raras por país

Brasil segundo:
  1. China44
  2. Brasil21
  3. Austrália6,3
  4. Rússia3,8
  5. Vietnã3,5
  6. EUA1,9
  7. Groenlândia1,5
  8. Tanzânia0,89
  9. África do Sul0,86
  10. Canadá0,83
  11. Malásia0,71

Milhões de toneladas de óxidos de terras raras. Índia, Mianmar e Tailândia não têm reserva publicada pelo USGS em 2026. Mundo: mais de 85 milhões de t (USGS).

Três palavras que não se confundem

Reserva
O que se estima ser possível extrair com lucro, hoje, a partir de estudos geológicos.
Produção
O que sai de fato da mina num ano.
Processamento
A separação química que transforma o minério em óxidos e metais, e depois em ímãs.
Fato comprovado

A China é a principal refinadora de 19 dos 20 minerais estratégicos de energia analisados pela IEA, com participação média de cerca de 70%.

Capítulo 4

Pressão, aliado, acordo

Em quatro países, em menos de dois anos, a sequência foi parecida. No Brasil, as duas primeiras etapas já aconteceram.

O padrão

Trump, Vance e Zelensky discutem no Salão Oval
Casa Branca, domínio público

Ucrânia

  1. Pressão

    Discussão no Salão Oval com Zelensky, cujo país depende de armas americanas.

  2. Acordo

    Metade da receita de novas licenças de minerais, petróleo e gás vai para um fundo com os EUA.

Trump e Milei posam na Casa Branca
Casa Branca, domínio público

Argentina

  1. Pressão

    “Se ele perder, não seremos generosos com a Argentina”, diz Trump antes da eleição. Swap de US$ 20 bi.

  2. Acordo

    Acordo-quadro de suprimento de minerais críticos assinado em Washington.

Delcy Rodríguez toma posse como presidente interina da Venezuela
Governo da Venezuela, domínio público

Venezuela

  1. Pressão

    Forças americanas capturam Nicolás Maduro em Caracas. Delcy Rodríguez assume.

  2. Acordo

    17 campos de petróleo, concessão de 100 anos, 35% e veto para os EUA, 20% da produção a preço de custo.

Marco Rubio e autoridades colombianas exibem acordos assinados
Departamento de Estado dos EUA, domínio público

Colômbia

  1. Aliado

    Abelardo de la Espriella, aliado declarado de Trump, toma posse.

  2. Acordo

    Em Barranquilla, Rubio assina acordos de minerais críticos e energia nuclear.

Interpretação

Primeiro vem a pressão. Depois, um governo que deve algo a Washington. Por fim, o acordo que abre recursos naturais aos EUA.

E o Brasil?

Trump sentado à mesa do Salão Oval conversa com três brasileiros sentados à sua frente
Salão Oval, maio de 2026. Trump recebe Flávio Bolsonaro. Segundo a descrição da imagem publicada por Trump, também estão na sala Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.Foto publicada no Truth Social de Donald Trump; domínio público (Wikimedia Commons).
Aliados no Brasil

Eduardo Bolsonaro, ainda deputado, muda-se para os EUA e passa a defender sanções contra autoridades brasileiras.

Fato
Pressão dos EUA

Trump declara emergência nacional por causa do Brasil e eleva a tarifa a 50%. O texto oficial cita Jair Bolsonaro e Paulo Figueiredo.

Fato
Pressão dos EUA

Os EUA entregam 21 exigências. Entre elas, aviso prévio sobre venda de ativos de minerais críticos e limites ao investimento chinês na mineração.

Fato
Instituições brasileiras

A Câmara declara a perda do mandato de Eduardo por faltas.

Fato
Aliados no Brasil

Na CPAC, no Texas, Flávio Bolsonaro apresenta o Brasil como “a solução da América” para depender menos da China em minerais críticos.

Declaração
Aliados no Brasil

Flávio é recebido no Salão Oval, com Eduardo e Paulo Figueiredo. No mesmo mês é aberta a Rockbridge Brazil LLC, administrada por um assessor de JD Vance.

Fato
Instituições brasileiras

O STF condena Eduardo por coação no curso do processo: usou as sanções americanas para pressionar ministros.

Fato
Pressão dos EUA

A USA Rare Earth, com dinheiro do governo americano na cadeia, assume a única mina comercial de terras raras do Brasil.

Fato
Instituições brasileiras

Lula sanciona a Política Nacional de Minerais Críticos: um conselho ligado à Presidência pode aprovar operações societárias no setor.

Fato
Instituições brasileiras

A lista de exigências vem a público. Lula: “inaceitável”.

Fato
Aliados no Brasil

Renan Santos acusa a Rockbridge de financiar a campanha de Flávio. A campanha nega; não há prova de transferência.

Alegação
Instituições brasileiras

Flávio Bolsonaro (47,05%) e Lula (45,13%) vão ao segundo turno, em 25 de outubro.

Fato

O que dizem os citados

  • Flávio Bolsonaro apresenta a eleição como escolha entre um Brasil aliado dos EUA no hemisfério e um Brasil alinhado aos adversários americanos. Sua campanha nega ter recebido recursos estrangeiros.
  • Pedro Sang reconhece vínculo com a Rockbridge e nega intermediar recursos.
  • André Marinho admite ter escrito o memorando sobre minerais e ter se encontrado com JD Vance. Diz que falaram de crime organizado e que não apresentou o texto a nenhuma autoridade americana.
  • A Rockbridge diz não ter unidade oficial no Brasil e afirma ter sido vítima de documentos falsos.
  • Paulo Figueiredo diz ser cidadão privado, que os imóveis são financiados e que foi autuado indevidamente.
  • O governo Lula recusou a lista de exigências e diz aceitar empresas estrangeiras desde que o processamento seja feito no Brasil.
Declaração

Em entrevista ao programa Revelando, de Bruno Torturra, publicada em 16 de outubro de 2026, o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, chamou de “submissão voluntária” a postura de políticos brasileiros diante dos EUA e de “posição de subalterno” a foto de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump no Salão Oval. “A busca de interferência é traição”, disse.

Capítulo 5

Quem é quem

Nove nomes aparecem nesta história. Para cada um, o cargo na data de hoje, o papel documentado e o status de cada afirmação.

  • Retrato de Donald Trump

    Donald Trump

    Presidente dos EUA desde janeiro de 2025

    Assinou a ordem que elevou a tarifa sobre o Brasil a 50%. Recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval.

    Foto: Daniel Torok / Casa Branca, domínio público

  • Retrato de JD Vance

    JD Vance

    Vice-presidente dos EUA

    Cofundador da Rockbridge Network. Um assessor seu administra a Rockbridge Brazil LLC.

    Foto: Emily J. Higgins / Casa Branca, domínio público

  • Retrato de Donald Trump Jr.

    Donald Trump Jr.

    Empresário; sócio da 1789 Capital

    Sócio do fundo que investiu na Vulcan Elements, parceira da dona do projeto no sul da Bahia.

    Foto: Gage Skidmore, CC BY-SA 2.0

  • Retrato de Eduardo Bolsonaro

    Eduardo Bolsonaro

    Ex-deputado federal; mandato declarado perdido em dez. 2025

    Mudou-se para os EUA e defendeu sanções contra autoridades brasileiras. Condenado pela 1ª Turma do STF por coação.

    Foto: Michel Jesus / Câmara dos Deputados, CC BY 3.0

  • Retrato de Paulo Figueiredo

    Paulo Figueiredo

    Comentarista político; vive nos EUA

    Citado na ordem executiva de Trump. Esteve no Salão Oval com Flávio e Eduardo. Deve R$ 4,9 milhões à União, o que contesta.

    Foto: recorte de foto publicada por Donald Trump, domínio público

  • Retrato de Flávio Bolsonaro

    Flávio Bolsonaro

    Senador (PL-RJ); candidato a presidente no 2º turno

    Apresentou o Brasil na CPAC como “a solução da América” em minerais críticos. Disputa o 2º turno em 25 de outubro.

    Foto: Agência Senado

  • Retrato de André Marinho

    André Marinho

    Comunicador; ex-candidato do Novo ao governo do Rio (0,52%)

    Autor do memorando “Prosperity Partnership” sobre minerais críticos e terras raras.

    Foto: TSE, CC BY 4.0

  • Retrato de Pedro Sang

    Pedro Sang

    Empresário

    Trabalha no comitê de campanha de Flávio em São Paulo e se apresenta como “Pedro da Rockbridge”.

    Foto: reprodução; autoria e licença a confirmar

  • Retrato de Carlos Alberto Santos Cruz

    Carlos Alberto Santos Cruz

    General da reserva; ex-ministro da Secretaria de Governo (2019)

    Militar de direita que critica a aproximação de políticos brasileiros com Trump.

    Foto: Isac Nóbrega / PR, CC BY 2.0

Cargos verificados em 17 de outubro de 2026. Aparecer nesta lista não significa ter cometido irregularidade. Cada afirmação traz o seu status e a resposta de quem é citado, quando existe.

Capítulo 6

Siga o dinheiro

Toda vez que se puxa um fio desta rede, ele termina no minério. Aqui estão só os fios que têm documento.

Puxe um fio:
sócio desde 2024cofundadorcofundadorcofundador (2019)encontro (abr. 2026)administraRockbridge nega vínculoinveste (ago. 2025)empréstimo de US$ 620 mimemorando (ago. 2025)dona desde 2023US$ 565 mi + compra da produçãodona desde 4 set. 2026financiamento: acusação sem provaapontado como CEOtrabalha no comitêDonald Trump Jr.sócioCBChris BuskirkcofundadorAndré Marinhomemorando sobre mineraisJD Vancevice-presidente dos EUACAChris Applegateassessor de Vance$1789 Capitalfundo de investimento★Governo dos EUAPentágono e DFC$Rockbridge Networkrede de doadores$Rockbridge Brazil LLCWyoming, maio 2026◆Vulcan Elementsímãs de terras raras◆Energy Fuelsurânio e terras raras◆USA Rare Earthímãs e mineraçãoPedro Sang“Pedro da Rockbridge”▲Bahia Projectsul da Bahia▲Serra VerdeMinaçu (GO)✓Campanha de Fláviocomitê em São Paulo
  • Participação ou controle
  • Investimento ou crédito
  • Contrato ou memorando
  • Relato ou declaração
  • Alegação sem prova
  • Dinheiro em movimento

Só aparecem vínculos com fonte publicada. Uma linha não indica irregularidade.

Do filho de Trump à Bahia

Donald Trump Jr. é sócio da 1789 Capital. Em agosto de 2025 o fundo investiu na Vulcan Elements, fabricante de ímãs que três meses depois recebeu US$ 620 milhões do Pentágono. No mesmo mês, a Vulcan assinou um memorando com a Energy Fuels, que desde 2023 é dona de 17 concessões de areias com monazita no sul da Bahia.

Interpretação São elos públicos e indiretos. O memorando não trata do projeto brasileiro, e não há registro de dinheiro de Trump Jr. aplicado na Bahia.

Do vice de Trump à campanha

JD Vance fundou a Rockbridge Network em 2019. Em maio de 2026 surgiu uma Rockbridge Brazil LLC administrada por um assessor dele. Pedro Sang, que se apresenta como “Pedro da Rockbridge”, trabalha no comitê de Flávio Bolsonaro em São Paulo.

Alegação A acusação de que a Rockbridge financiou a campanha não tem prova até agora. A Rockbridge nega ter unidade no Brasil; Sang nega intermediar recursos.

O dinheiro público americano

O governo dos EUA não está só na política. O Pentágono emprestou US$ 620 milhões à Vulcan. A DFC, banco público, financiou a Serra Verde com US$ 565 milhões, e um veículo com US$ 750 milhões do Departamento de Guerra comprou por 15 anos a produção da fase 1 da mina de Goiás.

Capítulo 7

Onde o subsolo já tem dono

A disputa tem endereço: três municípios do litoral baiano e uma cidade no norte de Goiás.

AlcobaçaCaravelasPradoGuaratingaIbirapuãItabelaItamarajuItanhémJucuruçuLajedãoMedeiros NetoMucuriNova ViçosaPorto SeguroTeixeira de FreitasVeredaOceanoAtlântico025 km

Limites municipais: IBGE. A área exata das concessões ainda não está desenhada: depende da consulta aos processos no SIGMINE, da ANM.

Sul da Bahia: areia que vale mais que a praia

Entre Prado, Alcobaça e Caravelas, as areias do litoral concentram minerais pesados: monazita, que contém terras raras e urânio, além de ilmenita, rutilo e zircão. Em 2023 a americana Energy Fuels comprou 17 concessões na região.

Dono
Energy Fuels (EUA), desde 10/2/2023
Ativo
17 concessões de areias com minerais pesados
Preço anunciado
US$ 27,5 milhões
Situação
Aguarda licenças; a monazita deve abastecer a usina da empresa em Utah
Fato comprovado

10 de fevereiro de 2023: a Energy Fuels conclui a compra do Bahia Project, 17 concessões de areias com minerais pesados (monazita, ilmenita, rutilo e zircão) no sul da Bahia, anunciada por US$ 27,5 milhões.

Praia de areia clara e mar verde-azulado em Prado, com falésias ao fundo
Praia do Farol, Prado. Foto: Márcio Filho/MTur, domínio público
Casa antiga de dois andares na Barra de Caravelas
Barra de Caravelas. Foto: Vilamir Azevedo, CC BY-SA 3.0
Barco no rio em Alcobaça, com coqueiros na margem
Alcobaça. Foto: Andrevruas, CC BY 3.0

Capítulo 8

O que o Brasil faz com isso

O minério não sai do lugar. O que se decide é onde ele vira valor, e quem decide.

  1. 1MinaMinério brutono Brasil
  2. 2BeneficiamentoConcentradono Brasil
  3. 3Separação químicaÓxidos de cada elementono Brasil
  4. 4MetalurgiaMetais e ligasno Brasil
  5. 5Fabricação de ímãsÍmãs permanentesno exterior
  6. 6Indústria finalMotores, turbinas, eletrônicosno exterior

Separar os elementos e produzir óxidos e metais aqui. É a etapa em que a China tem 91% do mundo, e a que a nova lei tenta trazer para o país.

O que fica no Brasil

  • Empregos qualificados em química e metalurgia
  • Mais valor por tonelada exportada
  • Poder de barganha: o que é escasso no mundo é refino, não minério

O que custa

  • Plantas caras e de longa maturação
  • Energia, água e reagentes em grande escala
  • Rejeitos com tório e urânio, no caso da monazita

Cenários qualitativos. Valores de emprego e receita dependem de estudos que ainda não estão publicados para os projetos brasileiros; não estimamos números aqui.

Pequenos montes de pós de óxidos de terras raras em tons de branco, bege e cinza
Óxidos de terras raras, o produto da separação química. Foto: Peggy Greb/USDA, domínio público

A aposta da lei de setembro

Fato comprovado

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (16/9/2026) cria um conselho ligado à Presidência, o Cimce, que pode aprovar operações societárias em projetos do setor e deve elaborar um plano nacional para beneficiamento, refino e industrialização no país.

Declaração

Lula diz não se opor a empresas estrangeiras explorando minerais no Brasil, desde que o processamento e a produção do produto final também aconteçam no país.

Soberania e sustentabilidade

Ambiental

Biomas, água, rejeitos, recuperação de áreas. Na Serra Verde, a Semad-GO já multou a empresa por desmatamento.

Social

Quem mora em Prado, Caravelas, Alcobaça e Minaçu: pescadores, comunidades tradicionais, trabalhadores. Consulta prévia é obrigação, não favor.

Econômica

Quanto do valor fica no país, quanto vai em royalties, quanto vira indústria. A IEA estima em US$ 60 bilhões o investimento necessário na próxima década para diversificar a cadeia fora da China.

Soberania

Quem decide sobre a venda de uma mina estratégica. A nova política cria um conselho ligado à Presidência que pode aprovar operações societárias no setor.

Puxando o fio

Faça a conta.

  1. 21 milhões

    de toneladas

    de terras raras embaixo do chão brasileiro. A segunda maior reserva do planeta.

  2. 2 mil

    toneladas

    foi o que o Brasil tirou do chão em 2025. A China tirou 270 mil.

  3. 91%

    do refino

    das terras raras dos ímãs acontece na China. É ali que o minério vira dinheiro.

  4. 1

    mina

    comercial de terras raras no Brasil. Desde 4 de setembro, tem dono americano. A produção já tem comprador por 15 anos, com dinheiro do Departamento de Guerra dos EUA.

  5. 17

    concessões

    no litoral do sul da Bahia. Dona: uma empresa americana, desde 2023.

  6. 50%

    de tarifa

    sobre o Brasil. No texto oficial que a justifica, o nome de um brasileiro que mora na Flórida.

  7. 21

    exigências

    entregues por Washington. Uma delas: avisar os EUA antes de vender qualquer ativo de minerais críticos.

O minério não sai do lugar.

Quem sai é o valor.

E, com ele, a decisão.

Há dois projetos em disputa para essa riqueza. Nas palavras de cada lado:

“O Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos.”

Flávio Bolsonaro, CPAC, Texas, 28 mar. 2026

Empresas estrangeiras podem explorar, desde que o processamento e o produto final sejam feitos no Brasil.

Lula, ao rejeitar as exigências dos EUA, 17 set. 2026 (paráfrase)

Os números desta página são fatos com fonte. As frases de efeito e o fechamento são a leitura desta investigação.